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Textos – Cristina Campos

“Paisagem in loco

Centro Cultural Emmerico Nunes, Sines

13 FEV – 10 ABR

“(…) as máquinas quase destruíam as torres duma cidade imaginada, submersa, inacessível, que eu suspeito ter sido construída com vento-suão (…)”

Al Berto, “Mar-de-Leva”

“Paisagem in loco”, proposta expositiva que Ema M., Rodrigo Bettencourt da Câmara, Rui Macedo e Teresa Palma Rodrigues desenvolveram para o Centro Cultural Emmerico Nunes, em Sines, deve ser lida e experienciada a partir da consciência daquele que foi definido como seu pressuposto estruturante: o carácter assumidamente site-specific. As quatro obras desenvolvidas pelos artistas, em suportes distintos (pintura, fotografia e instalação), resultaram não só de uma forte relação com as particularidades arquitectónicas do edifício que as acolhe, o histórico e referencial CCEN, como de uma dimensão social de vivência efectiva da cidade que fizeram questão de experienciar e absorver – incorporando-a de forma mais ou menos explícita nas peças que conceberam.

Em “Paisagem in loco”, Sines é o ponto de partida e de chegada. A Sines deste e de outros tempos através de um cruzamento de referenciais que pretendem despertar a certeza incontornável da subjectividade da memória que vamos construindo. Joga-se recorrendo à perspicácia e ao sentido crítico com as características geográficas e sócio-culturais do lugar, beneficiando do distanciamento decorrente da estranheza do olhar não viciado dos forasteiros. Os espaços habitados pela nossa memória são selectivos e os afectos podem cegar. As cidades, mesmo reais, são sempre imaginadas e parte da sua aura de atractividade ou repulsa permanece submersa e inacessível na esfera do inconsciente, como alude Al Berto.

Um dos mais interessantes aspectos potenciados pela exposição é o facto de incorporar uma curiosa e muito pertinente dimensão lúdica pretendendo jogar com aqueles que foram definidos como os seus espectadores privilegiados: os habitantes de Sines. “Paisagem in loco” é sobretudo para eles, em jeito de homenagem e manifesto analítico, levando-os a identificar algumas das realidades citadas mas também envolvendo-os na frustração e estranheza decorrente de pormenores que potencializaram a sensação de perda e desnorte.

A proposta de Rui Macedo materializa-se numa pintura a óleo, de grandes dimensões, concebida a partir de uma imagem aérea da cidade de Sines retirada do Google Maps. O seu título corresponde precisamente às coordenadas GPS do Centro Cultural Emmerico Nunes. O artista parodia, com uma forte e erosiva abordagem crítica, este dispositivo tecnológico que permite a visita virtual de locais distantes, identificando pontos de referência que muitas vezes acabam por se restringir a habitar o espaço das intenções de mobilidade, viagens de sonho nunca concretizadas. Viajar através do Google Maps até Abu Dhabi, aos glaciares da Terra do Fogo ou a Zanzibar é um exercício muitas vezes absolutamente inútil. Ter o mundo à distância de um clique pode não significar mais que permanecer inerte em frente a um computador. Rui Macedo subverte a realidade, ousa transformá-la, melhorando-a para a tornar mais atractiva para ser vivenciada: no lugar de alguns complexos fabris planta espaços verdes, acrescentas piscinas privadas em habitações particulares. Subverte a exactidão da reprodução virtual enfatizando a certeza que cabe a cada um de nós não se desresponsabilizar pela melhoria da vivência quotidiana.

A fotografia, também de grandes dimensões e a preto e branco que Rodrigo Bettencourt da Câmara apresenta corresponde a uma vista panorâmica sobre a baía de Sines tendo como ponto referencial e central estátua de Vasco da Gama. Manifestamente intemporal e aludindo ao romantismo, a imagem desconstrói por isso o seu carácter documental e sugestiona a necessidade afastamento para potenciar percepções mais explícitas. Virarmos as costas à terra que é nossa é partirmos com a certeza de um regresso mais clarividente mas também resistente ao efeito corrosivo da passagem do tempo.

Com “Casa Arrumada”, instalação pictórica composta por cerca de 50 caixas de madeira pintadas com signos de casas e igrejas, Ema M. transporta para dentro do CCEN algumas ruas da cidade. Manipula as referências às suas antigas e actuais designações envolvendo o espectador na tentativa de identificar edifícios. Novamente o enfoque é colocado na subjectividade e afectividade ligada à memória dos lugares. Que casas são estas que não reconhecemos, que locais de culto são estes em que não somos crentes? Perdemo-nos no mapeamento imaginado das ruas de Sines para chegarmos ao nosso imprevisível destino.

Em “Homens rudemente sinceros nunca podem ser espiões” Teresa Palma Rodrigues apropriou-se de uma frase retirada da “Breve Notícia de Sines”, escrita no século XIX por Francisco Luís Lopes, para dar título à sua peça explorando a partir da temática dos postais turísticos a vivência das cidades pelos seus habitantes. A artista recorreu à ampliação para espiar as personagens que se escondem minúsculas, em trajes de banho, por exemplo, no contexto de veraneio. Através de um processo de manipulação (ampliação, recorte e pintura), a artista concebe a partir desses postais outros assumidamente contemporâneos em que os visitantes se podem descobrir.

“Paisagem in loco” parece recordar-nos que não encontrar o norte é ter predisposição para rumar em direcção a outras latitudes sem que implique uma saída da nossa esfera geográfica de conforto e reconhecimento.

Cristina Campos
Fevereiro, 2010

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